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Veja, na
íntegra, o texto de 1966 do historiador Carvalho Déda sobre a
chegada do primeiro automóvel em Simão Dias.
“Até o ano de 1920, o que havia em Simão Dias, de mais
luxo e conforto em transporte era a liteira, uma espécie de
camarinha de madeira leve, com portas laterais e pequenos
postigos de ventilação, sustentada por dois varais compridos,
onde eram atrelados dois burros, um adiante e outro atrás.
Por essa época apareceu o primeiro automóvel na cidade,
que foi, no Estado, a terceira a possuir este gênero de
transporte. A primazia coube a Aracaju; em segundo lugar,
Estância.
A primazia, em Simão Dias, coube ao coronel Felisberto
Prata, rico e progressista comerciante da praça.
Um dia, a cidade alvoroçou-se, repentinamente, com um
estranho ruído de máquina e um fonfonar contínuo. Era um
automóvel “Ford”, preto, novo, de capota conversível,
correndo, aos trancos e barrancos, pelo calçamento irregular
das ruas.
Uma surpresa! Poucos conheciam aquela espécie de
veículo. A população inteira saiu de suas casas para ver a
grande novidade.
Ao lado de um chofer empertigado e enfatuado, o coronel
Felisberto Prata, eufórico, cumprimentava os curiosos com o
seu chapéu duro, de palhinha. Era a sua entrada triunfal na
cidade, depois de uma excursão recreativa pelo sul do País.
Durante alguns meses a cidade não comentava outra
coisa.
Surgiu o anedotário.
Conta-se que o ferreiro Roque Feliciano de Macedo,
lunático, constantemente preocupado com almas do outro mundo,
lobisomem, mulas-sem-cabeça e outras aparições sobrenaturais,
havia deixado sua produção de alho, a secar, espalhada em
frente de sua casa, na rua do Lagarto.
Ao ouvir o estranho barulho do Ford, correu para acudir
a seus alhos. E qual não foi a sua surpresa ao deparar-se com
a máquina preta, correndo por cima de paus e pedras, sem lenha
nem água! O Ford fez uma curva rápida, salvando os alhos do
Mestre Roque, deixando este estupefato, sem compreender a
“visagem”. Olhou por cima dos óculos sujos, persignou-se e
gritou: - Tá bêba, porca dos óio de vrido! Tu qué cumê meus
áios?!”
* Retirado do Livro de Carvalho Déda - Simão Dias, Fragmentos
de sua História.
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